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Tuesday, October 14, 2014

D

Dinamarca recebe príncipes portugueses?


A principal selecção nacional de futebol defronta a Dinamarca, em Copenhaga, daqui a pouco mais de três horas. No espírito de muitos está a obrigação de ganhar este jogo de apuramento para o Europeu-2016, tendo em conta que todas as equipas do grupo em que Portugal está inserido já pontuaram.
Acredito que os comandados de Fernando Santos consigam obter um resultado positivo, ou seja, a vitória, embora o empate não me pareça um mau resultado. Este jogo não serve para recuperar os três pontos perdidos contra a Albânia, em casa, porque isso é impossível, mas sim para não ficarmos em desvantagem diante da Dinamarca. Importa não esquecer que também o adversário de hoje perdeu dois pontos contra os albaneses.
Neste cenário, considero que o jogo de sábado contra a França foi um bom ensaio. Por um lado, perceberam-se as debilidades de alguns jogadores e do actual sistema táctico. Por outro, que julgo mais importante realçar, verificou-se que há margem de progressão da equipa e dos jogadores que a compõem.
Até aqui, tudo me parece pacífico. O que me incomoda em redor da Selecção é, tão-só, algumas pessoas continuarem a falar do comportamento de Ricardo de Carvalho. Foi incorrecto e acredito que, se não foi esquecido em três anos, não o será em 100 ou 200.
Paulo Bento, que aplicou um castigo ao central que o próprio Ricardo Carvalho admitiu poder infligir se fosse seleccionador, teve uma suspensão de seis meses por um acto de indisciplina cometido ao serviço da Selecção, em 2000, após a derrota contra a França.
Nuno Gomes e Abel Xavier também foram castigados, com oito e nove meses de suspensão, respectivamente. Rui Jorge, actual seleccionador da equipa de Esperanças portuguesa, que parece ter grande mérito na forma como aqueles jovens jogadores têm representado o nosso País, era um dos portugueses em campo, mas não foi castigado como Paulo Bento, Nuno Gomes e Abel Xavier, mesmo que tivesse corrido em direcção ao árbitro auxiliar do França-Portugal, após Zidane concretizar o 2-1 a favor dos gauleses.
Não terá ido convidar o assistente para jantar ou beber um gim depois de terminada a partida, até porque se dirigiu a ele de forma pouco amistosa. O que interessa tudo isto? Nada. Ou, se interessa, é muito pouco. Porque já passaram 14 anos. Não é por passarem «apenas» três após a fuga de Ricardo Carvalho que o seu gesto deve ser mais valorizado ou continuar a causar tamanha indignação.
Todos têm direito a uma opinião, incluindo eu, mas gostava que avaliassem apenas critérios futebolísticos. Daqui a nada, quando começar o jogo, Ricardo Carvalho pode querer sair da defesa a jogar, perdendo a bola e dando origem a um golo adversário. Nesse momento, e até durante dois ou três dias, merecerá, obviamente, ser alvo de crítica devido à sua imprudência. No entanto, no próximo fim-de-semana, há mais jogos e outros alvos para atingir.
Há muitos jogos, é tudo muito rápido. Fale-se apenas de futebol e não de telenovelas com jogadores da bola, porque para isso há «imprensa especializada».
Este espírito português – quiçá, universal – de ser forte com os fracos e fraco com os fortes é, no mínimo, pouco recomendável. Tal postura tem resultado na atitude que leva a endeusar o DDT Ricardo Salgado ou o brilhante Zeinal Bava quando estes estão no topo, havendo um estrondoso reverso da medalha e consequente ataque feroz no momento da queda de tais figuras.

Coragem é defender-se quando todos atacam ou atacar-se quando todos defendem. Coragem é também o que vai ser preciso, mais logo, para termos os tais príncipes portugueses na Dinamarca.

Tuesday, July 23, 2013

D

Desejo

Desejo é prazer. Mas também pode ser dor.
Desejo é irrequieto, com vontade indómita.
Desejo não se cria; apenas nasce. Ou desaparece na neblina matinal.
Desejo é um doce, às vezes amargo.
Desejo é um voto, amiúde em branco.
Só desejar não chega. Apenas sonhar não resulta.
Desejo começa com letra ‘d’ e vem no dicionário.
Vem na Psicologia e não é ordinário.
Aparece no final do ano ou no aniversário.
Desejo escrever, desejo ler, desejo partilhar.
Desejo comer, desejo beber, desejo viajar.
Desejo ser e igualmente parecer; desejo desejar!

Sunday, September 23, 2012

C

Coragem ou comodismo?!


Quase tudo na vida é dual, sendo muito natural que Portugal o seja também. Daí que oscilemos frequentemente entre a coragem e o comodismo.
Em Portugal, há (naturalmente) portugueses, e eu sou um deles, ainda com orgulho por sê-lo mas já com pouca paciência para o país em que vamos vivendo. Devido a esta desilusão, talvez tivesse sido um gesto de coerência participar nas diversas manifestações a que temos assistido, a última das quais anteontem, com um vigília à porta da residência oficial do Presidente da República.
Não é por falta de coragem, e muito menos por comodismo, que tenho estado ausente. De resto, essa ausência é apenas física. Tenho seguido todas as incidências que a televisão mostra com o máximo de atenção. E compro os jornais do dia seguinte, para precaver algum lapso de memória que surja no meio do turbilhão de patifarias que vão sendo executadas. Faço-o porque estou do mesmo lado da luta dos indignados, dos jovens, dos reformados, dos simplesmente adultos, dos que pedem a demissão de Miguel Relvas; de todos!

Criou-se durante muito tempo uma narrativa que defendia que só não trabalhava quem não queria, por preferir receber os subsídios que tivesse ao seu dispor, fossem de desemprego, de reinserção ou de outra coisa qualquer. Era uma narrativa incompleta, para não lhe chamar mentirosa; se bem que tomar a parte pelo todo não é, nem nunca será, uma boa política.
Neste momento, é diferente. O que se ouve são muitas pessoas a afirmar que querem trabalhar. Querem trabalho, nem sequer pedem um emprego. Querem fazer algo por si e pelo país, como os políticos gostam de referir. São as mesmas pessoas que já queriam antes, que sempre quiseram! Também se ouve pessoas a reivindicar direitos e regalias, com os quais sempre viveram e cuja perda não é suficientemente explicada, e muito menos compreendida, dada a sua ilegitimidade.
Quem ganha menos de mil euros – e não é preciso perceber muito de estatística para perceber que a moda e a média não são a mesma coisa – não pede um motorista particular, nem um segurança privado a seguir as suas pisadas, nem ajudas de custo para deslocações e almoços, chegando a aceitar com relativa passividade que lhe aumentem a carga horária diária em meia hora, uma hora, uma hora e meia ou até duas horas. Pedimos (sim, eu sou um deles) apenas que não nos tirem mais nada. Ou que, se nos tirarem, que comecem os cortes por quem tem mais, por quem ganha mais. Não é difícil fazer escalas nem definir escalões, mesmo que se perceba pouco de matemática.

Convém desde já esclarecer que não sou contra os ricos, nem os muito ricos, nem os milionários. Ainda bem que os há. Espero que continue a haver. Quem me dera ser um deles, nem que fosse apenas para provar que teria muito orgulho em pagar todos os meus impostos, e em pagar mais do que aqueles que tivessem menos.
Houve um antigo ministro das Finanças que disse, publicamente, não compreender por que motivo tinha direito a mais do que uma reforma, disponibilizando-se para ficar com apenas uma delas – talvez por ser um técnico, que trabalhou, e não um político profissional, que sobreviveu à custa de sabe-se lá o quê. Não refiro o nome do senhor em questão porque, tendo sido o único português que ouvi a insurgir-se publicamente – e mais do que uma vez – contra uma situação da qual até é beneficiário, deve ser fácil descobrir de quem se trata.
Tal como no Direito, em que se pretende tratar como igual o que é igual, e como desigual o que é desigual, também no Trabalho se deve receber de acordo com o que se produz, com a dedicação que se apresenta, a competência que se manifesta, as mais-valias que o seu empenho garante. Sou contra a existência de pobres e das desigualdades que originam o aumento de pessoas pobres, mas não sou a favor de uma igualdade cega de salários entre trabalhadores e, obviamente, empresários e empreendedores.
Em complemento à ideia supracitada, limito-me a transcrever uma frase dita há poucos dias no programa Inferno, no Canal Q, por alguém ligado ao festival Queer Lisboa e cujo nome, por lapso, não retive: “sem dinheiro, não há liberdade”. Por muita coisa que oiça ou leia, desconheço algo mais elucidativo do que isto. Voltemos aos sacrifícios.

Há justiça em um(a) deputado/a ou um antigo político reformar-se quando alguém mais velho do que ele, e que trabalhou durante mais tempo, não só não tem trabalho, como está longe da idade da reforma?
Que coerência há no prolongamento da idade da reforma para o cidadão comum quando há um aumento crescente do desemprego? Já para não falar nas empresas que não admitem trabalhadores com idade superior a 30 anos, solicitando sempre candidatos com 22 anos e com experiência…
Por que motivo se quer impor uma série de sacrifícios aos funcionários públicos, falando dessas pessoas como se ser funcionário público fosse profissão? Pensemos em três sectores ligados à Função Pública: Saúde, Educação e Justiça.
Deixámos de precisar de médicos, enfermeiros, auxiliares e uma série de outras pessoas que trabalham na área da Saúde, em prol do outro? É nestas pessoas que devemos cortar? Foram estes trabalhadores que levaram o país para a bancarrota?
Vamos continuar a não colocar docentes a ensinar, seguindo as questionáveis medidas impostas por reformas e mais reformas, fazendo com que alunos de todas as idades iniciem o ano lectivo sem professores? Ou que ainda haja turmas com três dezenas de alunos (ou mais), sabendo que está estudado há muito tempo que esse número é, pedagogicamente, desajustado?
Manteremos como supranumerários funcionários judiciais, sabendo que a Justiça continua lenta e muitos processos prescrevem sem explicações plausíveis para que tal aconteça? Vamos insistir na ideia de que as fugas de informação se devem aos ‘bandidos’ dos jornalistas ou aos ‘alcoviteiros’ dos oficiais de justiça, defendendo os deuses Procuradores e Juízes?

É certo que Portugal não é um país rico em matérias-primas. É verdade que há em nós um espírito muito latino de aldrabice, de inveja, de preguiça. Há pessoas assim e sempre haverá. Mas não somos todos assim e, sobretudo, não somos todos burros ou tapados, como julgam os espertos que nunca contam com a inteligência alheia, talvez por continuarem a confundir conceitos. E, apesar de tudo, temos alguma riqueza, que, ora devíamos desenvolver, ora devíamos preservar. Pensem no mar, pensem na floresta, pensem na terra, pensem no clima; pensem nas pessoas!
Não fomos todos adolescentes com o desejo secreto ou explícito de ser carreirista num Partido político. Não tivemos todos uma indómita vontade de enriquecer rapidamente, sem nos preocuparmos antes em trabalhar para que daí viessem frutos. Ao contrário do que diz o actual primeiro-ministro, não somos todos piegas, nem histéricos. Aliás, muitos de nós, no nosso anonimato, às vezes com dificuldade em nos expressarmos ou falarmos português da melhor maneira possível, temos muito mais sentido de Estado do que o senhor Pedro Passos Coelho. E embora muitos de nós, repito o MUITOS DE NÓS porque somos realmente muitos, saibamos que era bem melhor emigrar do que ficarmos aqui a ser mortos aos poucos, delapidados, frustrados, deprimidos, enganados, nunca o diríamos às pessoas que lideramos. “Eu, o vosso querido e amado líder, mando-vos embora, porque a minha forte liderança não suporta tanta gente”.
Resolver não é demitir nem demitir-se. Ajudar não é dar palmadinhas nas costas. Liderar não é ser cego e surdo, falando com uma voz colocada mas um discurso vazio, criado nos tempos da juventude partidária e estanque desde então.

Além de estarmos indignados, somos todos mais esclarecidos do que se foi em tempos. Não queremos a privatização da RTP a nenhum custo e lamentamos que algumas privatizações tenham sido realizadas sem a menor visão de futuro, sem qualquer sentido de Estado, sem a mínima demonstração de ligação ao país.
A RTP, por exemplo, é uma casa em que alguns bonecos e bonecas do entretenimento ganham acima das nossas possibilidades, havendo, por exemplo, jornalistas que, nem no topo das suas carreiras, ganharão um quinto desses valores. Esses bonecos não têm a culpa, dado que parece evidente que não obrigaram ninguém, com uma pistola em punho, a pagar-lhes valores tão elevados. Não é preciso privatizar, nem sequer racionalizar (verbo tão ao gosto de gestores iluminados); basta ser razoável e não ser alheio à realidade nem ao que se passa fora dos condomínios fechados, dos carros com vidros fumados e dos restaurantes com entradas restringidas ao chamado cidadão comum.
Por muito que se queira denegrir a imagem do cidadão português, salientando o seu desinteresse, desleixo, relaxamento, há muita gente que tem orgulho em ter uma companhia de bandeira como a TAP, uma televisão pública como a RTP, ou um banco como a Caixa Geral de Depósitos. Quando se discute a questão do serviço público de televisão ou tudo o que poderia melhorar relativamente à TAP ou à CGD, pensa-se na construção de algo ainda melhor e não em sacudir a água do capote da maneira mais fácil, que é privatizar. As gorduras do Estado não estão nos pés; estão no estômago e nas caras bolachudas!

Portugal é o país do Fado, inclusivamente com o justo reconhecimento da UNESCO, mas tinha deixado de passar a ideia de ser um país da tristeza; começava a haver mais humor, mais alegria, mais cor, mais olhares virados para o futuro. Agora, temos jovens deprimidos, adultos sem esperança no olhar, idosos mortos antes de o estarem clinicamente; até pasmei quando ouvi um militar (sim, desses que são rijos e não choram) admitir, numa estação de televisão, ter acordado uma noite destas a chorar, devido ao estado a que chegou o país. Felizmente, sabemos que estão atentos, que se mantêm discretos mas atentos.
E nós, todos os que também temos vontade de chorar muitas vezes perante o que vamos vendo e ouvindo, que nos indignamos por haver pessoas a passar fome, que lutamos para ter um trabalho, para produzir, para lutar pelo país e pelo seu avanço, que estamos do lado dos polícias que, inexplicavelmente, têm menos direitos e garantias do que os ladrões, também estamos atentos.
Estamos prontos para sair à rua, mesmo os que nunca o fizeram, mesmo aqueles que ainda vão lutando na sombra contra o actual estado de coisas, manifestando as suas opiniões apenas por escrito ou em determinados contextos em que tal se mostre relevante.

Do Euro 2004, tem-se a ideia que já se tinha antes: gastaram acima das nossas possibilidades, construindo mais estádios do que era necessário. É indubitável. Mas desse Campeonato da Europa de futebol, neste momento há que reter o refrão da música de Nelly Furtado, que nunca pensei que viesse a ser tão útil: “como uma força que ninguém pode parar”.
Não estamos dispostos a empobrecer indignamente como em alguns países asiáticos, depois de a nossa classe política ter fantasiado um Portugal demasiado próspero, gastando o que não lhes pedimos para gastar. Não estamos dispostos a esquecer o que se passou com o BPN, com as suas gentes e os seus dinheiros. Ninguém está disposto a ser tratado eternamente como mentecapto, ignorando o que se está a passar e como está a passar-se.
Podemos não ter as armas tradicionais com que se fazem as guerras, mas não temos medo de ir à luta nem estamos dispostos para continuar a ser comodistas.
Vamos ter coragem!

Monday, March 26, 2012

C

Companhia
É quase impossível ouvir a palavra companhia sem sermos remetidos para os mais diversificados universos. Mas, para mim, existe uma direcção principal, que se sobrepõe às demais: Duarte e Companhia. Esta série portuguesa, mesmo com o passar dos anos, não abandona o meu pensamento e assemelha-se cada vez mais a um Porto Vintage – não pára de melhorar com a voraz passagem do tempo.
Convém referir que, apesar de Duarte se considerar “um aventureiro, detective destemido, o primeiro a chegar quando tudo está tremido”, a sua postura era exactamente igual à do Tó, o seu funcionário que admitia que “se não houver sarilho, para mim é bem melhor”.
Sobrava a verdadeira companhia, que era a Joaninha, uma mulher de armas que, por ser tão fortemente inabalável, acabava por afastar todos os homens, nomeadamente aqueles durões lusitanos da década de 80 que, ao primeiro olhar, se enamoravam dela, mas que à primeira pancada passavam a temê-la.
Joaninha, por educação, jamais utilizaria as suas técnicas de luta para atacar o chefe. Era por chefe que ela tratava o Duarte. E por Tó que tratava o primo, simultaneamente colega e reivindicativo em relação aos salários em atraso.
Por outro lado, havia companhias menos desejáveis para Duarte: a mulher, o que seria de estranhar, e a sogra, o que já pode não ser assim tão exótico. A verdade é que, tal como a Joaninha, essas duas senhoras eram verdadeiros tanques de guerra, prontos a abater qualquer figura mais ousada que se lhes atravessasse ao caminho.
Ainda que os jovens imberbes que viram Duarte e Companhia quando a série foi transmitida pela primeira vez pudessem tentar apreender alguns dos truques de engate que Duarte utilizava, ou acreditar que a leitura atenta que o Tó fazia do jornal A Bola era um importante passo no desenvolvimento cultural de um homem, a verdade é que a acção propriamente dita vinha das… companhias.
Fossem os saltos mortais ou as piruetas da Joaninha, o tijolo embutido na mala de senhora da sogra de Duarte, ou os socos mais contundentes da esposa do “aventureiro, detective destemido”, era desta sensibilidade feminina que emanavam os grandes actos de justiça!
Posto isto, cabe-me enunciar, da forma mais delicada que souber, que outras companhias interessam aos diferentes tipos de pessoas que pululam pela nossa praça:
Companhia Teatral do Chiado – muito respeitada pelas gentes da cultura, acaba por interessar a muito poucos; afinal, estamos em Portugal, um país coerente, que pretende ser pobre… a todos os níveis.
Companhia Nacional de Bailado – poderia copiar o que escrevi no ponto anterior e colar neste, mas vou aproveitar para referir que, nesta Companhia, constam mais nomes estrangeiros do que na primeira. Para aqueles que possam ficar na dúvida perante esta última informação, não se trata de uma selecção das melhores strippers de Lisboa, Porto e Bragança. Estas bailarinas andaram mesmo no Conservatório!
Perfumes e Companhia – onde vão a correr aquelas meninas e senhoras que julgam que um espectáculo na Companhia Teatral do Chiado ou na Companhia Nacional de Bailado é igual a uma saída para uma festa da Pichucha de Mello e Chantilly na Kapital.
Dr. Passa Para Cá A Massa Que Eu Ponho-te Magra Em Três Tempos… e Companhia – para os “jornalistas” das revistas cor-de-rosa, aqui vai o alerta: ou escrevem o nome da acompanhante (primeiro e último, não se esqueçam), ou referem apenas Dr. Passa Para Cá A Massa Que Eu Ponho-te Magra Em Três Tempos, e acompanhante, na Kapital. Não precisam de nos explicar se ela é de luxo ou não; o povo percebe essas coisas. Mas é acompanhante, não é companhia!
Doces e Companhia – sítio aonde a acompanhante se deslocou demasiadas vezes, obrigando-a a consultar o Dr. Passa Para Cá A Massa Que Eu Ponho-te Magra Em Três Tempos.
Colchões e Companhia – loja onde o Dr. Passa Para Cá A Massa Que Eu Ponho-te Magra Em Três Tempos vai levar a acompanhante para que esta escolha em que formato de colchão terá de fazer os sacrifícios para… emagrecer. Fecha-se uma porta, abre-se uma janela. Emagrece-se na barriga, engorda-se na carteira.
Vitaminas e Companhia – sítio onde almoçam as meninas que mais tarde irão à loja dos Perfumes e Companhia.
Fraldas e Companhia – a grande preocupação de alguns dos meus amigos da minha geração, para quem as noitadas passaram a ter uma outra expressão semântica.
Companhia de Seguros Açoreana – amiguinhos, compreendo que o vosso objectivo seja emitir novas apólices, não deixar anular as antigas, conseguir novos clientes, especialmente se forem empresas que vos garantam prémios altos. Mas digam-me lá: custava muito saber que açoriano e açoriana se escrevem com um “i” a seguir ao “r” e antes do “a”?
Batatinha e Companhia – tal como no caso do Duarte e Companhia, existe a dúvida sobre quem é mais importante: a companhia ou o primeiro interveniente. Confesso que, tratando-se de palhaços, nunca sei se algum será realmente importante. As crianças, por seu turno, parecem oscilar entre o medo que sentem por aqueles narizes vermelhos e maquilhagem típica de uma velha prostituta de um cabaré decrépito do Bairro Alto, e um riso incontido e inexplicável perante mãos e pés artificiais e de tamanho desproporcional. No entanto, para desempatar, acabo por eleger o Batatinha como a companhia ideal do Companhia e não o contrário. E porquê? Porque o Batatinha entrou em O Último a Sair, da RTP1, e achei bastante ternurenta aquela amizade que se formou entre ele e a Gorda!

Sunday, February 26, 2012

C

Coincidências
Costuma dizer-se que “não há coincidências”. Suponho, de resto, que se utilize tantas vezes e com tamanha força esta expressão que Margarida Rebelo Pinto tê-la-á achado ideal para dar título ao seu segundo romance. Acresce informar que só por coincidência momentânea aparece aqui o nome da escritora, o que é bem diferente de afirmar que apenas por mero acaso esta ganha a vida dedicando-se à escrita.
Feito este intróito, não quero deixar de manifestar a minha preferência por uma outra expressão não totalmente diferente da primeira, mesmo que esta sempre me tenha soado melhor em castelhano: no lo creo en brujas, pero que las hay, las hay.
Suponho que as bruxas também sejam seres dedicados ao estudo dos signos, mas numa perspectiva bastante diferente daquela à qual Ferdinand de Saussure se dedicou.
Por bruxa não entendamos apenas uma mulher de vestes pretas, uma verruga na cara e uma vassoura que lhe atravessa o corpo de forma oblíqua. Bruxa pode ser qualquer uma das vossas colegas de trabalho, a vizinha do segundo esquerdo ou do quarto direito, ou ainda a passageira frequente do comboio da CP, que todas as manhãs faz o percurso entre as estações de Rio de Mouro e Campolide. E mesmo quando não se tratam de pessoas que escrevem Çignos em vez de signos, ou que não reparam na casualidade de a letra C ser a única que começa mais do que um signo astrológico (capricórnio, carneiro e caranguejo), não estão livres de serem uma bruxa.
Apesar de não acreditar em bruxas e de abandonar neste preciso momento a minha abordagem às mesmas, continuo a achar uma terrível coincidência que o Carnaval (do Rio) e a grande festa do Cinema americano (assente numa Hollywood desejosa de se exibir ao resto do mundo por via da cerimónia dos Óscares) decorram, anualmente, em datas tão próximas uma da outra.
Assim como estou convicto de que não há coincidências no facto de a tão falada crise estar espalhada um pouco por todo o mundo Ocidental: deve-se mais à falta de carácter de alguns governantes, ao compadrio e à confusão entre as contas de somar e de sumir, e ainda à ausência de coragem para trabalharem em nome de causas e não em prol das suas próprias e fúteis coisas.

Sunday, December 25, 2011

B

BANANA
Quando se fala de banana junto de uma população particularmente despretensiosa, cujas idades podem variar entre os 15 e os 45 anos (ao lançar estes números, utilizo apenas a noção de estimativa, esquecendo completamente a exactidão), a probabilidade de haver risota é bastante grande: seja porque alguém lamenta não ter conseguido comer uma banana por inteiro; seja porque outro dos intervenientes na conversa revela não gostar das bananas da Madeira (por serem pequenas); ou ainda porque alguém assume a felicidade de não ter escorregado naquela casca de banana que se encontrava em pleno passeio, apesar de aquele objecto verde suspenso num poste (mais conhecido como caixote do lixo) estar ali tão perto.
De facto, a palavra banana pode ter várias conotações de cariz sexual (e até musical, se recorrermos a “Como o macaco gosta de banana”, de José Cid), mas, na realidade, não passa de um conjunto de seis letras que designam um fruto de cor verde (antes de estar maduro) que se metamorfoseia em cor amarela quando fica maduro.
O problema é que para quem, como eu, leu ‘As minhas aventuras na República Portuguesa’, a vontade de mudar o título do livro de Miguel Esteves Cardoso para ‘As minhas aventuras na República das Bananas’ é grande. Actualmente, Portugal é isso mesmo: uma república das bananas, governada ora por bananas que são sérios (mas não deixam de ser uns bananas), ora por mãos de ferro coordenadas por espíritos determinados mas com vidas escorregadias (como as cascas de banana).
Já para quem gosta de futebol, o remate em banana é enfatizado por ser um gesto que dignifica quem o executa, salientando os especialistas nessa matéria que, tal proeza (a de efectuar um remate em arco), só está ao alcance dos predestinados.
No campo do desporto aventura, o Verão é pródigo em levar alguns homens de assumida masculinidade a montarem-se (literalmente) numa banana (de plástico) puxada por uma mota de água. Há quem se regozije com esse triste espectáculo que junta várias pessoas ostentando coletes salva-vidas fluorescentes em cima de uma banana que mais parece um martelo pneumático, que abandonou a sua missão perfuradora e vertical em terra para se dedicar a uma missão de transporte e horizontal no mar. Até hoje, continuo sem descobrir tais encantos!
Voltando ao fruto propriamente dito, é inesquecível aquela lição de algumas avós que, sendo oriundas de famílias mais endinheiradas e tendo ganho certos tiques de linguagem, optam por não repreender a preguiça dos netos que preferem comer uma banana em detrimento de outro fruto, por ser fácil descascá-la, louvando antes, com um tom de voz quase teatral, a aposta destes nesse fruto tão rico em potássio e que ajuda a evitar as cãibras na adolescência.
Quem em tenra idade tomou consciência de que a banana tem potássio, sorrirá sempre de maneira diferente da pessoa a quem, no mesmo período etário, foi dito que “banana mole não serve”.

BETWEEN

Segundo um dicionário de Inglês/Português da Porto Editora, de 1989, a palavra inglesa between é uma preposição que significa “entre, no meio de (duas pessoas ou coisas)”.
Berlim esteve durante 45 anos do século XX dividida entre a República Democrática da Alemanha e a República Federal da Alemanha, tendo sido o seu Muro um dos expoentes máximos da Guerra Fria entre os Estados Unidos da América e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Actualmente, existe uma Alemanha unificada e uma única Berlim, rica pela diferença e não pela divergência. Mas a História não deve ser apagada (nem repetida)!
Belfast, que é a capital da Irlanda do Norte, continua a estar no meio de duas facções: católicos de um lado (próximos da República da Irlanda) e protestantes do outro (fiéis à Coroa Britânica). Apesar de a guerra no território irlandês (ou das duas Irlandas) já ter tido dias mais sangrentos, é impossível, para quem já esteve em Belfast, esquecer que há ruas onde de um lado só caminham católicos e do outro só passam protestantes.
Ultrapassar determinado limite, nessas ruas, pode causar o derramamento de muito sangue. Continuo a ser a favor de alguns limites; mas não destes!
Budapeste não está entre nem no meio de duas pessoas ou coisas; é o mítico rio Danúbio que está no meio da capital húngara, marcando (sem conflitos) a distinção entre Buda e Peste. Cidade que deu azo à criação de uma música, há quase duas décadas, que tornou o nome do grupo musical português Mão Morta mais conhecido, Budapeste é uma cidade elegante e discreta, mas ao mesmo tempo imparável, provando que tudo é mais saudável quando serve para unir ao invés de separar.
Balaton é um lago situado também na Hungria e que, à semelhança do Danúbio em Budapeste, não divide; agrega. Apesar dos seus quase 600 km2 de superfície, e de ter vários pontos de interesse como Tihany e a sua península, ou ainda Badacsony, Balatonfüred, Fonyód, Balatonberény e Siófok, o Lago Balaton é uma marca de orgulho e de união para a população magiar.
Benfica, Sport Lisboa e Benfica. Nascido da fusão entre o Sport Lisboa e o Grupo Sport Benfica, começou por unir. Mais tarde, sem precisar de dividir, reinou. Depois cresceu. Entretanto caiu. Desejam os seus sócios e simpatizantes que já se tenha levantado.
Alfabeticamente, encontra-se entre o Futebol Clube do Porto e o Sporting Clube de Portugal. Desportivamente, está no meio de uma crise existencial: a de saber se é realmente o maior clube português, por ter conquistado mais títulos nacionais de futebol do que todos os outros, ou admitir que já perdeu essa posição para o Futebol Clube do Porto, que possui mais títulos internacionais.
Como em quase tudo na vida, está-se quase sempre entre uma coisa e outra, entre o bem e mal, entre a direita e a esquerda, entre o preto e o branco, entre baptizar ou deixar a escolha para quando a criança crescer. Ou no meio de duas pessoas: mãe e pai, um filho ou outro, a mulher que esteve ou a que há-de vir, o presidente da república ou o primeiro-ministro.
Se falarmos em Bizâncio, estamos entre dois mundos, entre dois continentes, entre duas religiões, e até entre outros dois nomes: Istambul e Constantinopla.
É a vida!

BARRIO LATINO
Era muito fácil escolher Bono, mesmo que esse não seja o seu verdadeiro nome. E era demasiado óbvio para mim. Não deixava também de ser justo, por muito que alguém que muito estimo, embora não conheça pessoalmente (Herman José), tenha um ódio de estimação pelo Senhor Paul David Hewson, a voz dos U2.
Mas a minha última selecção para a letra B vai para BARRIO LATINO Paris By CARLOS CAMPOS, álbum de 2003. Contando com dois discos, Cenando e Bailando, bastou ouvir a música Amor De Siempre num café/restaurante de Podgorica (antiga Titogrado) para logo procurar saber do que se tratava.
Decorria o dia 3 de Novembro de 2003. Dois dias mais tarde, consegui adquirir o álbum numa discoteca de Budapeste, antes de correr apressadamente para apanhar um comboio que me levaria a Cracóvia, onde ouvi, pela primeira vez, Cenando e Bailando de uma ponta à outra.
É uma história simples, quiçá demasiado fútil, mas se até hoje não foi esquecida, provavelmente é porque BARRIO LATINO Paris By CARLOS CAMPOS não é só a música Amor De Siempre; é amor para sempre.

Sunday, December 18, 2011

A

AMÁLIA

Três semanas depois de o Fado ter sido considerado património imaterial da humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), era de uma assinalável falta de memória iniciar ‘O meu dicionário (pouco) ilustrado’ sem fazer referência a Amália Rodrigues.
Mesmo que não o fosse para a maior parte da população portuguesa, seria sempre para este português que, apesar de algumas viagens inscritas no seu roteiro de vida, insiste em não emigrar, mesmo quando a crise aperta e a esperança num futuro melhor está no nível mais baixo que se pode imaginar (ultimamente, utiliza-se a classificação Lixo – coisas do rating).
Um dos aspectos mais curiosos neste processo é que a decisão de elevar o Fado a património imaterial da humanidade foi tomada em Bali, na Indonésia, país com o qual Portugal manteve um longo diferendo, devido ao desrespeito desse país situado quase nos nossos antípodas pelos direitos do povo de Timor.
Muitas vezes, a conjugação dos opostos resulta numa harmonia inesperada e a roçar a ironia. Talvez por isso, é provável que o gesto de António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que decidiu concluir a sua intervenção em Bali chegando um moderno iPhone ao microfone para onde discursava e deixando que a sala ouvisse Amália cantar a tradicional ‘Estranha forma de vida’, fique gravado na nossa memória colectiva durante largos anos.
São precisamente os dois lados antagónicos de Amália que dificilmente farão esquecê-la. Porque, se por um lado era idolatrada e símbolo involuntário de um regime, por outro tinha os seus detractores, não só por razões políticas que não terão sido bem aprofundadas, mas também por ter tido um lote de pecados que todos os seres humanos merecem desfrutar mas que nem todos se disponibilizam para compreender.
Para os que não sabem, não nasci na Mouraria nem em Alfama, mas gosto de Fado desde pequenino, talvez desde a mesma altura em que me lembro de gostar do Benfica. Porque sempre gostei daquele ambiente, sempre apreciei a sonoridade e sempre dei valor às nossas letras, à nossa cultura e à nossa língua.
Sempre gostei e continuo a gostar. Mas só gosto do que é autêntico. Não estou disponível para defender cegamente uma nova geração de fadistas só porque é nova ou só porque criou novas roupagens.
Haverá sempre Amália, Severa e Marceneiro. No momento em que escrevo, ainda há Carlos do Carmo, Ana Moura, Camané e Mariza.
Mas há mais, muitos mais: uns que ganharão o seu lugar ao sol, outros a quem a selecção natural empurrará para a berma da estrada.

ANA

Diz um provérbio português que ‘há mais Marias na terra’. Há um outro que refere que ‘quem nunca pecou, que atire a primeira pedra’. Eu, que tenho um espírito popular q.b., peço aos homens que nunca se envolveram com alguém de nome Ana que se cheguem à frente.
Para que não haja a mais pequena dúvida, convém salientar que uma paixão platónica também serve.
Sim, há os que gostaram de uma Ana e não foram correspondidos. Depois, há alguma Ana que levou uma nega devido às suas borbulhas típicas da adolescência ou a algum excesso de peso. Existe também o lote daquelas Anas a quem se roubou um beijo sem ela estar à espera e de quem logo se fugiu para que uma mão não nos viesse pousar na cara (ou as duas, dependendo da fúria). Pode haver uma Ana que nos massajasse o pescoço enquanto a professora de geografia escrevia no quadro negro que Bucareste é a capital romena e Budapeste é que é a capital da Hungria. Há uma Ana com quem se fez tudo mas que afinal não foi nada. E há aquela Ana com quem não se fez nada mas a quem se deu quase tudo. Ou há uma Ana professora que entra em sonhos menos próprios. Ou então uma Ana que foi o grande amor da nossa vida. Ou ainda uma Ana que foi só amante, ou só colega, ou só empregada de limpeza.
Mas há sempre uma Ana, tem que ter havido sempre uma Ana na nossa vida. Tal como uma Maria, nem que seja apenas o seu segundo nome próprio.
Se for Ana Maria é bingo. Se for Maria Ana, ou é gaguez, ou é mera falta de gosto!

ACHTUNG BABY
Na escolha para a terceira e última palavra começada por A, havia várias hipóteses. É sempre bom quando existem alternativas.
Podia escrever sobre as características do signo Aquário e da enorme capacidade que os jornalistas estagiários têm para fazer horóscopos. Aos que se sentem mais à vontade nesse tipo de trabalho, deixo um conselho: dediquem-se ao humor ou ao negócio imobiliário, que também tem muita graça.
Outras hipóteses eram falar da água e da falta de recursos naturais que começam a assolar o nosso planeta, ou das águias que simbolizam tanto o Benfica, como a Lazio de Roma ou a Albânia, ou ainda dos meses de Abril e Agosto… mas não era a mesma coisa!
Cheguei a pensar dedicar um texto ao Aimar, ao Pablo Aimar, jogador de futebol do Sport Lisboa e Benfica, que é mais do que um jogador e não merece que eu me arrisque a utilizar palavras eventualmente pouco adequadas para a enorme qualidade que apresenta dentro e fora do campo.
Por isso, é com algum atraso (afinal, sou português e um atraso é quase intrínseco) que assinalo os 20 anos sobre o lançamento do Achtung Baby.
Há quem diga que essa obra-prima mudou a forma de se fazer música. Outros dizem que foi o último grande álbum dos U2. Por outro lado, muita gente salienta que foi com o Achtung Baby que começou a gostar da banda irlandesa.
Eu limito-me a dizer que não me recordo de ouvir tantas pessoas falarem de um álbum. E também tenho alguma dificuldade em lembrar-me de bandas que assinalem uma efeméride deste tipo. Mas aguardo que me corrijam, se for caso disso.
Para todos os efeitos, é um álbum inesquecível. É como um filme vencedor de um Oscar, bom do início ao fim. Se nesses filmes, há diálogos que, consoante o enquadramento, são reproduzidos por um dos elementos de um casal, ou por um grupo de amigos, quiçá por um director executivo de uma multinacional, em Achtung Baby surge um conhecimento quase perfeito de cada música, do seu nome e do seu som, da sua letra e da primeira vez em que foi ouvida, com quem e em que estação de rádio.
Achtung Baby apresenta a dúzia mais perfeita de tudo o que conheço. Se pudesse, Os Dez Mandamentos eram substituídos por estas 12 Faixas e não se falava mais nisso.
Porque Achtung Baby é irrepetível! E o que me importa essa inevitabilidade se sei que a genialidade passou por ali?!