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Monday, July 22, 2013

histórias em 77 palavras

Pela fresquinha, cruzei-me com o sr. Armando, contínuo do Liceu onde estudei antes de cursar Direito, e por onde continuo a passar todas as manhãs.
Volvidos tantos anos, fui direito a ele, abracei-o e disse-lhe o que dizia sempre: "se não arranjam a ala este do edifício, este rui".
Alentejano frontal e de poucas manhas, revelou: "desde que o Dr. Eça foi para o Concelho Directivo, creio que é essa confusão que eles estão armando, menino Rui".

Wednesday, February 07, 2007

Um tapete voador

A dona Alda é a empregada doméstica do Francisco. Foi empregada da família Brandão desde sempre.
Agora que o Francisco cresceu e já vive sozinho, manteve-se fiel à dona Alda, que tem um filho dois anos mais novo. O Francisco ensina português, é um jovem professor, enquanto o Augusto, filho da respeitável senhora, é engenheiro civil.
Um dia destes, enquanto limpava a secretária onde o docente deixa toda a sua papelada, deu de caras com um texto que o próprio tinha escrito, a propósito de um exercício que pensara propor aos seus alunos. A dona Alda nunca foi uma pessoa intrometida, mas nesse dia não resistiu à tentação e acabou mesmo por ler.
“Do meu tapete voador, vejo tudo o que quiser e fecho os olhos a tudo quanto me apetecer. No meu tapete voador, levo Yerevan, a Arménia e todo o seu povo, mas fecho os olhos ao vermelho e branco, à U.R.S.S. e a um país novo. Vejo mais longe a Albânia, Tirana e a Vânia, mas não esqueço Atenas nem a Suzana com o seu blusão de penas.
No meu tapete voador, parto até Belgrado, visito o túmulo de Tito, entro no Cibercafé e falo com o Eduardo. Caminho do forte até à estação, e é tal a sorte que o comboio está mesmo ali à mão.
Do meu tapete voador, recordo o atravessar dum país. Parece que agora são seis, foi assim que alguém quis. E outra vez a história do Kosovo, que volta-não-volta surge, como se fosse um tema novo.
Quero ir ao Japão sem ser de avião, mas com o meu tapete voador não é possível. Meto-me então no comboio a vapor, talvez seja mais exequível. Sei que é mesmo necessário fazer o trans-siberiano, mas cheira-me que ainda não é este ano.
Não sei se é falta de tempo ou de espaço; é falta de dinheiro, essa espécie de ameaço.
Agarro no meu tapete voador, que agora arrumo. Já sonhei tudo por hoje: sonhei viagens, sonhei consumo”.
A dona Alda sentiu-se orgulhosa do menino Francisco, quase como se ele fosse seu filho. Como se ele ainda não fosse um formador de consciências, como se nunca tivesse crescido. Continuou a limpar e a arrumar, agora mais feliz, mais contente por ali estar.

Tuesday, February 06, 2007

Tudo por causa do olfacto

Afonso estava numa tasca com o seu primo Miguel, que ia comendo e bebendo alegremente. Afonso, já farto daquele cheiro a tremoços e a cerveja, incitou o primo a irem dar um passeio, sem rumo definido.
“Deves estar a brincar comigo. Os pneus do teu carro cheiram a borracha de terceira categoria, além do raio do cheiro a madeira que infestou o habitáculo do veículo. Já te disse que isso de andares com a Vanessa, noite sim noite não, a comprar o mobiliário todo naquela multinacional sueca, e depois deixares as caixas no carro, não é boa ideia”, transmitiu Miguel.
Afonso sorriu, retorquindo: “vá lá, tenho de pôr gasolina e assim aproveitas para cheirá-la, como tanto gostas. É que aproveitas mesmo, porque hoje vou encher o depósito”.
Miguel esboçou finalmente um sorriso e, quando Afonso estava a atestar o depósito do carro, virou-se para o primo, repentinamente, desafiando-o: “vamos andar de comboio, vamos procurar aquele cheiro a carril de que ambos tanto gostamos. Nem que seja só até ao Entroncamento”.
Acabaram por ir. Partiram de Santa Apolónia a meio da tarde, já com o bilhete de ida e volta comprado, e passaram as viagens na carruagem bar, com o cheiro das bifanas, do gin tónico e dos amendoins bem presentes. Quase tão fortes como o cheiro que adivinhavam vir do exterior da carruagem: do rio Tejo, das flores ainda vivas, do alcatrão mais ou menos cuidado, do fumo dos carros e das fábricas.

Thursday, February 01, 2007

Viver à conta do pincel

João Santos apresentou ontem a sua primeira exposição de pintura a solo, sem a presença dos quadros dos amigos do costume, Pedro Soares e Fátima Rodrigues.
Os presentes encontraram-no com um pincel atrás da orelha, qual merceeiro com o lápis, dando as boas vindas aos visitantes. Apesar da calvície em estado bastante avançado para a sua idade, e da pêra que não disfarça o seu ar de artista meio enlouquecido, João Santos caminha para os 50 anos com um ar quase tão jovem como a sua filha adolescente, a Joana.
Na galeria onde expôs as suas obras, proliferavam relatos de toda a sua actividade artística ao longo da vida. Lembravam as suas poesias na adolescência, aquelas que lhe saíam nos intervalos dos treinos e campeonatos de luta livre, para os quais precisava de fazer dietas rigorosíssimas, sob pena de ser excluído das competições, por peso a mais. Hoje, olha-se para a sua barriga protuberante e percebe-se o motivo daquele esforço.
Relatavam ainda a sua entrada na Faculdade de Direito e consequente desistência, no pós 25 de Abril de 1974. Nesse Período Revolucionário Em Curso, apostou antes numa licenciatura em Educação Física, para contrariar os pais. Foi também recordada a sua dedicação aos cartoons que fazia para diversos jornais e uma iniciação nas danças de salão, para conhecer ainda mais miúdas.
Terminaram aquela narração referindo a sua desistência do ensino do desporto aos jovens, devido à sua aposta total na pintura, que já lhe permite ganhar a vida desse modo, o que era pouco expectável em Portugal.
Quando João repara, enfim, que aquela pequena multidão já leu tudo o que tinha a ler e que está, finalmente, centrada na sua pessoa, agarra no pincel que tem sobre a orelha, puxa-o, molha-o na tinta vermelha e desata a salpicar os convidados, como forma de agradecimento pela sua presença.

Sunday, January 14, 2007

O malandrão

Miguel é um malandrão à antiga, daqueles que ainda usa brilhantina e tudo o resto que é suposto um malandrão usar. Já ninguém sabe ao certo o que ele fez durante a sua vida profissional activa, mas quase todos sabem com quem o vêem.
Este homem de idade avançada costuma andar pela zona do Rossio, Rua Augusta, Rua dos Correeiros, e vai passando pelos cafés, pelas retrosarias, pelas lojas de roupa, ouvindo os cumprimentos que soam à sua passagem, como se fosse o Presidente da República: “Bom dia, sr. Miguel”, “olá, sr. Miguel”, “só agora, Miguel?!”.
Quando passa finalmente pela Rua da Conceição, encontra todos os dias a sua mulher, na paragem do 28, conforme combinado. Esperam tranquilamente pela chegada do eléctrico e, à sua paragem, sobem e cumprimentam o sr. Fonseca, o condutor. Sentam-se e seguem até à Graça, onde dão o passeio do costume, sem que esse hábito se lhes depare como algo fastidioso.
A dona Elvira costuma dizer que o senhor Miguel – um malandrão também pode ser um senhor – foi sempre um grande amante. Ninguém percebe bem o que ela pretende dizer com isso, até porque meia Lisboa, onde cabe toda a gente sábia e antiga da capital, conhece bem a fama do Miguelão.
Também a conhece a sua esposa, a dona Elvira, uma raposa velha e cheia de sabedoria, já octogenária e fumadora convicta de cachimbo: “mas o que é um amante senão aquele que ama, aquele que é companheiro e camarada?”, pergunta, embora saiba antecipadamente a resposta.
A verdade é que o senhor Miguel, apesar de ainda ter a fama de malandrão, foi também um sapateiro à antiga, bastante competente e reconhecido por todos os bancários e advogados da baixa pombalina, muitos deles já desaparecidos deste mundo. E pese embora as suas escapadelas extraconjugais, foi sempre um adepto fanático e verdadeiramente dedicado a uma só pessoa: a sua mulher!

Monday, January 08, 2007

Em torno da plasticina

Com um pedaço de plasticina nas mãos, todos os sonhos são possíveis. Assim o pensa aquele homem de pele gasta pelos anos e pelo cansaço de uma vida de trabalho. Pele enrugada, barba cerrada, olhos encavados e um olhar distante, apesar de feliz pela certeza de ter cumprido parte da sua missão enquanto ser humano. Homem de família, sério, diante da televisão sobre aquela mesa de madeira que lhe foi deixada pelos seus pais, com o aparelho ligado sem que ele dê por isso, enquanto vai mexendo e remexendo a plasticina, que se lhe vai enfiando unhas adentro.
O senhor Herlander foi um conhecido funcionário da maior casa de leilões de Lisboa, situada em pleno Bairro Alto, onde outrora se encontravam os principais jornais do país. O seu sonho sempre fora licitar algo bem diferente do que habitualmente fazia com os quadros ou as porcelanas antigas, naquele espaço onde proliferava o cheiro a óleo de cedro.
Várias vezes o senhor Herlander disse aos seus filhos, enquanto jantavam, que o que gostaria mesmo era de leiloar molduras de metal, como as que o senhor Arlindo fazia na sua juventude. Ou então, e este era o seu verdadeiro sonho, poder dizer: bife com batatas fritas por dez escudos uma; bife com batatas fritas por dez escudos duas; bife com batatas fritas por dez escudos arrematado ali pelo senhor Pedro, acompanhado pelo seu advogado, o doutor Lobo.
O filho mais novo questionava-o sempre por que motivo não leiloar antes o bolonhês de atum ou o polvo com batatas cozidas. “Não foi com esses pratos que sonhei proferir aquela lengalenga, meu filho”, explicava-se ele.
De facto, tornara-se complicado olhar para o senhor Herlander, ao fim de tantos anos naquela casa, e saber que nunca poderia leiloar os objectos com que sempre sonhou, além de se perceber que os valores que lançava para o ar já surgiam de forma quase mecânica e com pouco brilho no olhar.
Sempre consciente de tal situação, aquele homem passava os dias a pensar quantos mais cabelos brancos lhe iriam nascer devido àquele trabalho repetitivo e já desinteressante, embora prosseguisse a sua vida profissional de forma estóica.
O que o senhor Herlander nunca escondeu foi que da plasticina jamais o privariam. Porque essa era a sua maior fonte de sonhos, com ou sem televisão ligada.

Friday, December 22, 2006

O problema do silêncio

Sexta-feira. Dez da noite. Mais um programa de entrevistas em directo, no canal alternativo da televisão pública portuguesa. Mafalda Seabra, a apresentadora, recebeu Vítor Guedes, um reputado professor catedrático na área das relações internacionais.
A dado momento da entrevista, sem que nada o fizesse prever, surgiu a pergunta de Mafalda: “e se você fosse jornalista?”.
Vítor Guedes passou a mão pelo cabelo, depois pela testa, respirou fundo e, finalmente, respondeu: “morria de pé”.
A apresentadora ficou pensativa e o silêncio tornou-se perturbador, mesmo naquele programa, onde a calma e a reflexão eram marcas de qualidade. Aqueles cinco segundos duraram uma eternidade e o fundo negro por trás de Mafalda sugeriu a queda a pique das já poucas audiências do programa.
O entrevistado sentiu uma certa tensão no ar e continuou, procurando salvar a pele da sua interlocutora: “Repare: para que serve o Natal?”.
Mafalda abriu os olhos, assustada, como que a dizer que perdeu o domínio da entrevista, até que, por momentos, percebeu que devia reagir. Sorriu e lançou uma palavra: “continue”.
Vítor acedeu e prosseguiu o seu discurso: “o Natal serve, ou para o limpa pára-brisas, ou para as questões amorosas”.
Mafalda continuava boquiaberta, perdida.
“Depende tudo da linguagem. O Natal é uma linguagem que é válida apenas para alguns povos, da mesma forma que um jornalista morrer de pé é só para alguns”, salientou Vítor.
“É tudo uma questão de linguagem, ou de percepção da realidade”, concluiu a entrevistadora, como que renascida do sono profundo a que o seu entrevistado a tinha remetido.
Mafalda renasceu, então, com a sua tão característica linguagem, com a sua percepção da vida humana e com o silêncio imperturbável do público que os escutava, sentado no sofá, aquecido por um barato radiador a óleo, de roupão a agasalhar o tronco e de chinelos a permitir um merecido descanso aos pés.